///
Frêmito de asas, vibração ligeira de pés alvos e nus, que dançam, tontos, como dança a poeira numa réstia de luz… São as horas, que descem por um fio de cabelo do sol, e vivem num contínuo corrupio, mais obedientes do que o girassol. Dançando, as doze bailarinas tecem a vida; e, embora irmãs, não se vêm, não se dão, não se parecem as doze tecelãs! E, de mãos dadas, confundidas quase, no invisível sabá, elas são silenciosas como a gaze, ou farfalhante como o tafetá. Frágeis: têm a estrutura inconsistente de teia imaterial, que uma aranha teceu pacientemente nos teares de um rosal. E, entre tules volantes, noite e dia, o alado torvelim vertiginosamente rodopia, numa elasticidade de Arlequim! Vêm coroadas de rosas, num remoinho cambiante de ouro em pó: cada rosa, que esconde o seu espinho, dura um minuto só. Sessenta rosas, vivas como brasas, traz cada uma; e, ao bater da talagarça diáfana das asas, põem-se as coroas a resplandecer… À proporção que gira à minha frente o bailado fugaz, cada grinalda, vagarosamente, aos poucos, se desfaz. E quando as doze dançarinas, feitas de plumas, vão recuar, levam as frontes, claras e perfeitas, circundadas de espinhos, a sangrar… Assim, depois que a estranha sarabanda na sombra se dilui, penso, vendo o outro bando que ciranda em torno do que fui, que há uma alma em cada gesto e em cada passo das horas que se vão: pois fica a sombra de seu véu no espaço, fica o silêncio de seus pés no chão!
As palavras do texto (tafetá, tules, talagarça) têm o significado de: