///
Diálogo pós-morte (Autor Desconhecido)
– Alô?
– Sim.
– Maria?
– É ela mesma, quem fala?
– É o José...
– Ah, sim, tudo bem? Que que aconteceu? Tá com a voz estranha...
– Eu estou bem sim, mas...não sei como te falar isso...
– Ora, fale logo! Está me deixando preocupada!
– O Joaquim...teu irmão...faleceu essa madrugada...
– Ah meu Deus...
– Ele morreu dormindo, não sentiu nada. Não se preocupe
– ...
– De manhã quando acordamos, não vimos ele lendo o jornal. Estranhamos e fomos ao quarto ver o que havia acontecido. Ele estava deitado, meio encolhido. Parecia mais calmo que nunca.
– Meu Deus...Não nos falávamos há anos! Vocês já sabem como ou por que aconteceu?
– Disseram que o coração parou. Só isso.
– Meu Deus...
– Ele viveu bem. Não passou sequer uma semana doente. Não sofreu. Morreu dormindo. Eu mataria para morrer dormindo e sem sofrer como ele...
– Sim, ao menos isso...morreu dum jeito bom, se é que isso existe.
– O velório será naquele cemitério que o vô de vocês tá enterrado. Nunca lembro o nome daquele lugar.
– Ah, sei onde é.
– Vai ser amanhã às nove da noite.
– Às nove da noite ?
– Sim...
– Não tem como ser mais cedo ?
– Não, aparentemente muita gente morreu e os horários estão reservados.
– Até quando você morre tem que ficar na fila! Esse mundo...
– É...
– Mas olhe, aquela lanchonete de lá fica aberta até essas horas?
– Acho que sim.
– Que bom, não aguento essas coisas sem tomar um cafezinho. Sabe como é...
– Sei sim. Então você vai?
– Acho que sim, tenho que ver se arranjo alguém pra gravar a novela para mim, senão não sei como farei...
– Ah, entendo...
– Até amanhã, filho. Você serviu meu irmão muito bem todos esses anos. Deixou de ser caseiro e virou um irmão. Obrigado.
– Magina, não fiz mais que minha obrigação. Até amanhã.
(Desligam os telefones)
– Maldita velha hipócrita...
Na última frase do texto “– Maldita velha hipócrita...”, podemos trocar a palavra “hipócrita” sem prejuízo de sentido por: