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HANIM DO AMOR PERDIDO
Saudade é sentimento expresso apenas na língua portuguesa. Eis aí uma afirmação ouvida frequentemente, até de estudiosos de literatura e do idioma. Quer dizer, brasileiros e portugueses foram abençoados pelo bom Deus com a melhor saudade do mundo. A melhor, não – a única. Será?
O Brasil já tem o melhor futebol do mundo, o melhor voleibol do mundo, o melhor carnaval do mundo, as melhores mulatas do mundo, os melhores ronaldos futebolísticos do mundo.
Em certos círculos dizem também, talvez com alguma ironia, que a falta de terremotos e tsunamis é compensada com folga pelos melhores políticos do mundo, a melhor reforma agrária do mundo, a melhor distribuição de renda, o melhor Congresso, o melhor ex-presidente e o melhor presidente do mundo. Entre outras coisas.
Com tanta coisa maravilhosa, por que teria "este país" também a melhor saudade do mundo? Seria injustiça com os demais povos.
Ao escrever sobre o tema, um colunista de jornal afirmou que "saudade existe somente na língua portuguesa". Repetiu autores conceituados, mas distraídos. É claro que o vocábulo "saudade", com as sete letras que o formam nessa disposição específica, só existe na língua portuguesa. O que ele tentou dizer é que não há, em outra língua, palavra de significado igual ao de saudade. Um engano.
Como não há sinônimos perfeitos na mesma língua, a não ser em alguns casos, talvez seja possível concluir, por isso, que não há em línguas diferentes palavras de perfeita equivalência para nominar certos sentimentos e emoções. Haveria pelo menos matizes que as diferenciassem umas das outras. Seria o caso, quem sabe, de saudade – sentimento que em outras línguas talvez não seja expresso por palavras de ocorrência e versatilidade semelhante e, sobretudo, de tão abrangente e suave carga semântica. Em suma, saudade teria significado mais rico do que o de palavras que designam o mesmo sentimento em outras línguas.
Pode ser. No entanto, o professor José Marques Cruz, já no céu, informou em seu "Português Prático" (Ed. Melhoramentos) que os russos têm a palavra "toscá" com o mesmo sentido. Em alemão, há "sehnsucht"; em árabe, "shauck"; "garod" em armênio; "jal" em iugoslavo; "ilgas" em letônio; "natsukashi" em japonês; "nedostatok" em macedônio.
Por que, então, brasileiros e portugueses, povos já tão abençoados por Deus, tão bem governados, teriam o privilégio de só eles sentir saudades?
O professor Napoleão Mendes de Almeida, também já no paraíso, registra em seu "Dicionário de Questões Vernáculas" duas palavras árabes equivalentes a saudade: o aportuguesado "chauque", de "shauck", e "hanim", palavra onomatopaica. Hanim, escreveu ele, "reproduz a voz da camela que ao chegar ao destino volta a cabeça na direção do lugar em que deixou o filho e expressa com um 'hanim' alto, longo e sentido, o pesar do afastamento".
"Hanim!, hanim!", temos vontade de balir, ou blaterar, alto, longa e lamentosamente, como a camelona saudosa, a cada governo que termina, depois de cumpridas todas as promessas e pagas todas as dívidas sociais. Como eram bons os tempos de esperanças! Que saudades!
Hanim!
(Josué Machado, Revista Língua Portuguesa Nº 15/2007, com adaptações)
Em diversas passagens do texto, o enunciador utiliza expressões que denotam dúvida acerca do que acabara de explicitar. Dentre tais expressões, não se pode citar: