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O mito do progresso
No alvorecer do século 21, paradoxos estão por toda parte. A capacidade de produzir mais e melhor não cessa de crescer; e exige ser sinônimo de progresso. Mas, para além dos espetaculares e inegáveis sucessos do engenho humano que tornaram a vida muito mais confortável e mais longa, o progresso parece ter perdido o rumo; e traz consigo maior exclusão, concentração de renda e degradação ambiental.
Os países mais avançados produzem armas de impensável poder de destruição, ao mesmo tempo que desenvolvem e divulgam globalmente uma cultura que se compraz em imagens de extrema violência e estimula a intolerância. Tão inquietantes quanto os riscos nucleares são agora os decorrentes da microbiologia e da engenharia genética, com seus graves dilemas éticos e morais.
Como equilibrar os benefícios potenciais da robótica e da nanotecnologia com o perigo de desencadearem um desastre absoluto que, na opinião de vários pensadores eminentes, pode comprometer irremediavelmente nossa espécie? Como manter a governabilidade global quando uma pequena elite cada vez mais afluente vive cercada literalmente por uma multidão crescente de excluídos, ou quando o padrão tecnológico em vigor produz anualmente bilhões de toneladas de resíduos tóxicos irrecicláveis que envenenam a Terra? (...)
Ao final do século passado, o progresso foi reabilitado pelo neoliberalismo globalizado, que anunciava garantir paz e abundância por meio do mercado livre. A fantasia do "fim da História" durou muito pouco. O conceito de destruição criativa, essência da acumulação capitalista contemporânea, passou a exigir um sucateamento cada vez mais rápido dos ciclos tecnológicos para manter a roda do consumo em movimento. Como a renda gerada é insuficiente, agora se avança também pela incorporação dos mercados pobres à lógica da acumulação: miseráveis africanos utilizam celulares reciclados e recarregados por baterias transportadas em bicicletas; e latas de leite condensado, com fita vermelha pintada, são promovidas a presente de aniversário.
Uma questão central brota cada vez com mais força: esse tipo de desenvolvimento nos deixa mais sensatos e felizes? Ou podemos atribuir parte de nossa infelicidade precisamente à maneira como utilizamos os conhecimentos que possuímos? A idade dos velhos aumenta, mas a qualidade de sua vida é cada vez mais precária. As UTIs tornam-se depósitos de mortos-vivos em condição desumana; e uma ciência vitoriosa e onipotente passa a "inventar" continuamente doenças para justificar novos medicamentos que fazem os lucros da pujante "indústria médica".
Para além dos seus irresistíveis sucessos, as consequências negativas do progresso – transformado em discurso hegemônico – acumulam riscos crescentes que podem levar de roldão o imenso esforço de séculos da aventura humana de tentar estruturar um futuro viável e mais justo.
É inócuo atribuir inocência à técnica, argumentando que o foguete que carrega o míssil nuclear é o mesmo que leva os satélites de comunicação. Embalados pelas novas realidades, assistimos a um mundo urbano-industrial-eletrônico cada vez mais reencantado com as fantasias oníricas de "pertencimento" a redes, comunicação "plena" em tempo real, compactação digital "infinita" – de dados, som e imagem –, expansão cerebral com a implantação de chips e transformações genéticas à la carte.
Mas, apesar de toda a magia das novas tecnologias transformadas pela propaganda em objetos de desejo, há imensas preocupações quanto à direção desses vetores, que não são escolhidos democraticamente pela sociedade mundial. Maurice Merleau-Ponty dizia que chamar de progresso nossa dura e penosa caminhada nada mais é que uma elaboração ideológica das elites.
Assim como hoje é caracterizado nos discursos hegemônicos, esse progresso é apenas um mito renovado para nos iludir de que a História tem um destino certo e glorioso, que se construiria mais pela omissão embevecida das multidões do que pela vigorosa ação da sociedade respaldada pela crítica de seus intelectuais.
Identifica-se a ocorrência de sujeito sentencial no seguinte período: