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Meninxs, eu vi!
Sírio Possenti
A pretexto de incluir todos os gêneros, o colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro, passou a adotar, em comunicados oficiais, uma grafia que elimina Os e As em palavras como “alunos” e “alunas”, substituindo essas letras por X: “alunxs”. A opção faz parte de uma pletora de casos em que se pretende corrigir aspectos da língua e de textos, supostamente por serem ofensivos, excludentes ou inexatos. (...)
A norma do colégio D. Pedro II propõe uma escrita artificial (não foi inventada no colégio) que evitaria discriminação. A solução tem vários problemas, a despeito das boas intenções – o inferno, como se sabe...
A primeira questão, obviamente, é como ler estas palavras (nem preciso explicar o problema). Ou se quer que sejam apenas vistas ou lidas em voz baixa (como alun@s)?
Já o problema de fundo é a própria questão de gênero, ou seja, a relação biunívoca que haveria entre gênero gramatical e gênero social (o antigo sexo). É fácil ver que nem sempre esta relação se mantém. ‘Lua’, ‘cisterna’, ‘arte’, ‘galho’, ‘intelecto’, e acho que também ‘anjo’, nada têm a ver com sexo. A questão só se torna potencialmente problemática quando se trata de humanos. Mas considere ‘criança’...
No entanto, animais podem servir como passagem de um extremo a outro. Quando dizemos “bois”, discriminamos as vacas? É sexismo falar ‘dos’ tigres de Bengala e ‘dos’ ursos polares? Acho complicado.
É comum que se fale de animais genericamente por meio da palavra gramaticalmente masculina: (carne de) porco, (asa de) frango, (costela de) boi etc.
Quando se trata de humanos (as mulheres são humanas, nesta versão do politicamente correto?), em certa medida, a questão é a mesma: a palavra gramaticalmente masculina designa o gênero (no sentido relacionado a espécie); a palavra feminina designa uma parte, uma parte específica. “Os alunos devem...” refere-se a todos os discentes; “as alunas devem”, só às discentes do sexo feminino. O problema não são as formas “alunos” e “alunas”, mas o que se diz que devem...
Uma coisa é lutar para que certas palavras marcadas negativamente sejam trocadas por outras, mais amigáveis. Outra é querer resolver o problema no interior da gramática.
Palavras marcam certas culturas. Eventualmente, culturas definem seu gênero: ‘arte’ é feminino em português (a arte), masculino em espanhol (el arte). Não é fácil sustentar que, em um caso, se trata de feminino ou de masculino para além do gênero gramatical. É um fato neutro, provavelmente, quanto a qualquer laivo de sexismo.
Mas a tese a ser levada em conta é a de John Martin. (...) Sua tese é que não há masculino e feminino em português, mas apenas palavras marcadas e não marcadas quanto ao gênero. O que impressiona em sua breve e certeira argumentação é que se usam formas masculinas tanto relacionadas a nomes não femininos (“Pedro é alto”) quanto em todos os casos em que não há nome com o qual relacionar, por exemplo, um predicado:
“navegar é preciso” (nunca ‘precisa’)
“aqui faz frio” (nunca ‘fria’)
“aqui é bom” (nunca ‘boa’)
Que não se diga que “navegar” é masculino. Por favor. Uma boa causa, como o feminismo e a igualdade de gêneros, merece argumentos melhores.
Segundo Sírio Possenti, a iniciativa do colégio D. Pedro II vem de encontro à gramática porque, contrariamente ao que propõe,