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Nem oito, nem 80: extremos no consumo de açúcar prejudicam a saúde mental
Por Lara Natacci
Pouca gente imagina, mas a relação entre o açúcar e a nossa saúde mental é muito mais complexa e surpreendente do que parece. Um estudo recente, que acompanhou cerca de 170 mil pessoas por mais de 10 anos, trouxe nuances importantes sobre como diferentes tipos de açúcar se relacionam com depressão, ansiedade e comportamentos de autoagressão.
Tanto o excesso quanto a restrição exagerada podem estar associados à piora da saúde mental. O perigo, ao que tudo indica, mora nos extremos. O estudo avaliou diversos subtipos de açúcar presentes na alimentação, desde os naturalmente encontrados nas frutas e nos laticínios até os açúcares livres, adicionados a bebidas e produtos industrializados. Como esperado, consumir grandes quantidades dos açúcares adicionados, especialmente em bebidas açucaradas e doces, esteve ligado a um maior risco de depressão e ansiedade ao longo dos anos. O “muito pouco” e o “muito” estão associados a mais problemas emocionais, enquanto o meio-termo pareceu mais protetor.
À primeira vista, isso pode causar estranhamento. Afinal, falar em proteção associada ao açúcar não combina com a visão tradicional, de que ele é um vilão absoluto. Mas essa interpretação simplista não se sustenta quando olhamos para a fisiologia. O cérebro precisa de glicose – não de exageros, mas de um suprimento adequado para funcionar. Restrições severas podem elevar hormônios de estresse, afetar neurotransmissores e piorar à relação emocional com a comida. No outro extremo, o excesso crônico de açúcar favorece inflamação, estresse oxidativo, alterações no metabolismo da glicose no cérebro e uma série de impactos na microbiota intestinal – fatores já bem documentados na literatura.
O estudo reforça que não é o açúcar isoladamente que determina o humor, mas o contexto em que ele aparece. O açúcar das frutas, dos cereais, dos feijões ou dos laticínios não age da mesma forma que o açúcar adicionado em bebidas açucaradas. Quando o consumo de carboidratos acontece dentro de uma dieta equilibrada, rica em fibras, vegetais, grãos integrais e proteínas de qualidade, o organismo metaboliza esse açúcar de maneiras muito diferentes, com picos glicêmicos menores, mais saciedade e modulação positiva da microbiota. É justamente entre os alimentos que compõem esse padrão alimentar de maior qualidade que encontramos os verdadeiros fatores de proteção para a saúde do cérebro.
Frutas, hortaliças, leguminosas, cereais integrais, oleaginosas e peixes, por exemplo, fazem parte de grupos alimentares estudados em padrões como a dieta mediterrânea e a MIND diet, que mostram efeitos consistentes na redução de sintomas depressivos e ansiosos.
Sobre a afirmação de que a visão sobre o açúcar como vilão absoluto é uma interpretação simplista que não se sustenta, assinale a alternativa correta.