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Às vezes me sinto um Cavalo de Troia dentro da corporação. Já ouvi várias vezes que ‘mulher não deveria estar na polícia’, que ‘não dá conta’, que ‘esse não é lugar para mulher’. A gente tem que ser excelente para conseguir um mínimo de reconhecimento. Enquanto isso, um homem pode errar, pode ser mediano, e ninguém questiona. Eu reconheço que a gente já avançou bastante, vejo isso na minha experiência cotidiana como policial. Hoje há mais respeito do público externo e entre colegas, mas ainda existe algo que pesa, que é, sem dúvidas, estrutural”.
Juliana Lemes nasceu em 1985 em Itambacuri, uma cidade pequena a cerca de 30 km de Teófilo Otoni, no nordeste de Minas Gerais. Ela é policial militar. Ao conversar comigo, Juliana pediu para deixar claro que tudo que ela me contaria era fruto de sua vivência e sua reflexão, e não expressava a posição da corporação da qual ela faz parte.
Ela me conta logo de cara que seu único filho, de 23 anos, acabou de ingressar na mesma carreira – para surpresa, orgulho e medo da mãe. Surpresa, pois o rapaz não cresceu com o sonho de ser policial, e nisso sua história não se distingue muito da de sua mãe, que só decidiu pela carreira depois de fazer a faculdade de serviço social, área em que defendeu inclusive um doutorado.
“Agora meu filho acaba de entrar pra polícia.... Entrou com 21 anos. Ele tá agora passando a farda dele. Digo sempre pra ele que tem que caprichar na farda. E é ele que faz tudo. Lava, passa, mas deixa a casa uma bagunça! E eu preciso estar sempre sacudindo ele, pra meu filho abrir os olhos. Embora ele não tenha crescido dizendo que não queria ser policial, estudou em escola militar, e a influência dos colegas pesou na decisão. Quando os amigos começaram a prestar concursos, ele resolveu fazer a prova também. Mas penso assim: não sou herdeira. Ele precisa seguir a vida dele, e talvez se encontre mais rápido do que eu lá dentro, porque tomei muita pancada até que isso acontecesse”.
A expressão “Cavalo de Troia” indica que a policial se sente: