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Existem diversas razões para começar a ler um autor. Há aqueles que lemos porque todo mundo está lendo, como Elena Ferrante e Karl Ove Knausgård. Outros, nós conhecemos por acaso ou indicação e nos transformamos em “leitores inflexíveis, sistemáticos e falhos de imaginação que se obrigam a ler a obra completa de um escritor quando descobrem um do seu agrado”, como descreveu, um pouco invejoso, o escritor português Bruno Vieira Amara em Hoje estarás comigo no paraíso. Nem todo leitor é capaz de tamanha paixão e fidelidade, ainda que só por uns meses. Eu não sou e invejo quem é.
Há também aqueles autores que lemos e relemos quase obrigados pelos tempos, como se buscássemos conselhos: lemos George Orwel quando a treva autoritária voltou a assombrar a política, estamos lendo Albert Camus e todo e qualquer livro que mencione uma epidemia para aprender a viver em quarentena. E há os autores que começamos a ler com o pior dos atrasos, tarde demais para escrever umas frases lamentosas no Twitter quando topamos com o obituário deles.
Toda leitura é interessada. Lemos escritores hypados para não ficar em silêncio quando nossos amigos começam a falar deles, para conferir se valem mesmo pena. Transformamos em “leitores inflexíveis, sistemáticos e falhos de imaginação” porque é próprio do amor limitar nossos interesses. E temos lido autores que escreveram sobre autoritarismo e peste porque, talvez desde a Bíblia, debruçamo-nos sobre o que foi escrito no passado para tentar adivinhar o futuro ou tentar impedi-lo de chegar.
E quando lemos um autor recém-falecido, qual é a nossa intenção? Não é descobrir um autor novo, uma vez que depois de ler tantos obituários, já nos familiarizamos com seus temas, decoramos as sinopses de seus principais livros e aprendemos alguns adjetivos para nos referirmos a seu estilo. Lemos para identificar no texto todas as características apontadas pelos obituaristas, como se emprestássemos deles peças de um quebra-cabeça que só quem leu o autor consegue completar?
É complicado ler um autor que acaba de morrer. Primeiro porque há quase uma obrigação de gostar, por respeito ao morto. Também porque os tantos textos lidos sobre o legado do autor contaminam a leitura, que se torna talvez uma experiência menos individual e quase uma tarefa que os atrasados cumprem meio envergonhados e muito reverentes.
Na última quinta (16), depois do anúncio da morte de Garcia-Roza, li, enfim, A última mulher (não tinha nenhum Rubem Fonseca mão). Estava tudo lá, tudo o que eu tinha lido e ouvido nas últimas horas: o introspectivo delegado Espinosa, suas andanças pelo Rio de Janeiro, seu gosto por comida árabe e seus “livros formando uma fileira que cobria toda a extensão da parede e apoiados uns sobre os outros, ocupando de ponta a ponta e do chão até quase o teto toda parede da sala”.
A dedicação pessoas, mais que ao mistério, não é apenas que um testemunho da bondade de Espinosa. Se for verdadeira a tese de Ricardo Piglia, que afirmou que uma das maiores representações modernas da figura do leitor é o detetive, essa dedicação também nos faz imaginar que tipo de tipo de leitor é o delegado.
Ele não parece ser um daqueles que lê desesperadamente, para decifrar sentidos ocultos em cada linha, ou que lê apressadamente, para não ficar fora dos assuntos. Talvez Espinosa seja um desses leitores que fazem da leitura um exercício de empatia, que se envolvem com os personagens e aprendem a amá-los, que não têm interesse em dissecá-los e julgá-los.
Um desses leitores que todos nós que gostamos de ler talvez fomos um dia, antes de aprendermos que podíamos usar nossas leituras para provar nossa inteligência, antes de começarmos a esconder, envergonhados, que a leitura nos emociona como a outros emocionam as novelas. Se todas as leituras são interessadas, essa, que é tão pouco utilitária e até se deixa enganar pelos personagens, talvez seja a menos interesseira.
Considerando o exposto pelo texto, analise as assertivas a seguir:
I. O autor se identifica com os leitores apaixonados, que descobrem um novo autor e precisam ler tudo que dele é publicado.
II. Segundo o autor, alguns livros e autores lidos na atualidade têm relação com o momento histórico pelo qual passamos.
III. Para o autor, ler escritores recém-falecidos nos dá mais liberdade de gostar ou não da obra, uma vez que o receptor das críticas já não tem como rebatê-las.
Quais estão corretas?