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Anton Tchekhov publicou a novela “Enfermaria nº 6” (disponível na antologia O beijo e outras histórias, organizada e traduzida por Boris Schnaiderman e editada pela 34) em 1892. Com precisão e delicadeza, o narrador nos apresenta um pavilhão decrépito, nos fundos de um hospital psiquiátrico, numa cidadezinha russa aonde a estrada de ferro ainda não havia chegado. Lá, vivem cinco loucos, vigiados por um soldado truculento chamado Nikita, que espanca e rouba os doentes.
Um deles é Ivan Dmítritch Gromov, “ex-oficial de justiça e ex-amanuense”, um paranoico, vencido por ideias obsessivas, magro e pálido. A novela narra a relação de Ivan Dmítritch com o médico Andréi Iefímitch Ráguin, homem tranquilo, de aparência saudável, que se esforça para praticar certa “indiferença filosófica” aprendida com os estoicos.
Ivan Dmítritch e Andréi Iefímitch são ambos leitores, mas se relacionam com a leitura de modos diferentes. Antes de ser internado na Enfermaria nº 6, Ivan Dmítritch “não lia propriamente, mas engolia os textos, mal tendo o tempo de os mastigar”.
A leitura era “um de seus hábitos mórbidos”. Talvez ele lesse tão desesperadamente porque tinha pressa, queria respostas. O narrador informa que Ivan Dmítritch era um homem de pensamento duro, desprezava o meio-termo: “nos seus julgamentos sobre as pessoas, ele esparzia tintas concentradas, apenas brancas e pretas, não reconhecendo quaisquer matizes”.
Não causa nenhum espanto que alguém tão apegado a uma razão tão rígida tenha sido dominado por pensamentos que se pintavam com tintas brancas e pretas, obsessões que talvez fossem vencidas se ele descobrisse o cinza. Ivan Dmítritch também “falava sempre apaixonadamente, com exaltação, das mulheres e do amor, mas nunca estivera apaixonado”. Culpa do excesso de leituras, talvez. A literatura estraga as melhores horas de amor.
Andréi Iefímitch também lê muitíssimo “e sempre com grande prazer”; aprecia “mais que tudo obras sobre história e filosofia”. Não lê “com a mesma impetuosidade de Ivan Dmítrich outrora, e sim devagar, com penetração, detendo-se com frequência nas passagens que lhe agradam ou que não compreende”.
Quando rapaz, Andréi Iefímitch queria ser sacerdote, mas o pai, “influenciado pelas ideias da década de 60”, obrigou-o a ser médico. Na década de 1860, jovens sonhavam implantar na Rússia as ideias de liberdade e progresso tiradas de livros franceses. Queriam que a razão substituísse os caprichos do tsar e da Igreja Ortodoxa, aquela a que Andréi Iefímitch queria servir como sacerdote.
Como não pôde passar a vida relendo textos sagrados e interpretando-os para justificar a subserviência dos mujiques à aristocracia, Andréi Iefímitch leu os filósofos estoicos e se convenceu de que os sábios são capazes de desdenhar o sofrimento, que para eles são indiferentes o aconchego do escritório e a penúria da Enfermaria nº 6.
As discussões entre o médico e o louco expõem as limitações dos métodos de leitura dos dois. A princípio, a leitura desesperada de Ivan Dmítritch parece mais perigosa, pois o desprezo pelo meio-termo e a busca furiosa por respostas pretas ou brancas o enlouqueceu. Mas a leitura de Andréi Iefímitch também é nociva, porque propõe uma dissociação entre o corpo e o espírito, como se fosse possível aos verdadeiramente sábios ignorar o frio e a fome. Como se os pacientes da Enfermaria nº 6 pudessem ser homens livres ainda que trancafiados num pavilhão caindo aos pedaços e assediados por Nikita, porque “a tranquilidade e a satisfação do homem não estão fora, mas dentro dele”.
Ivan Dmítrich acusa as ideias do médico de “filosofia mais apropriada a um indolente russo”. O obsessivo conhece o perigo das leituras demasiadamente prescritivas. A letra sozinha pode matar, principalmente quando usada para justificar os sacrifícios dos que têm menos – dos pobres, dos loucos e dos encarcerados – e em troca oferece apenas o conforto das ilusões. “A doutrina que prega indiferença à riqueza, às comodidades da vida, o desprezo pelos sofrimentos e pela morte, é de todo incompreensível para a imensa maioria, pois esta jamais conheceu a riqueza nem aquelas comodidades”, rebate Ivan Dmítritch.
Na linha 25, a palavra “outrora” pode ser classificada como advérbio de: