///
Quem passou por um sofrimento profundo sabe que a felicidade não está pronta, mas sempre em construção. A jornalista gaúcha Nereida Vergara sofreu um baque sete dias antes de completar 50 anos. Tudo ruiu quando soube da traição do marido com uma mulher mais jovem. “De criatura alegre, passei a ser um fantasma raivoso e amargo, me despersonali__ei a ponto de não reconhecer minha imagem no espelho”.
Nereida pediu o divórcio, passou pelo divã e encarou a dureza de ter um interlocutor que apontava os seus erros, e não os da outra pessoa. Depois, reviu sua relação com o trabalho, que havia deixado em segundo plano por causa do casamento, e começou em um novo emprego. “Acho que reeditei minha história e a coloquei em um cenário real”, diz ela, que deixou de lado a fantasia do amor eterno. “Minha alegria tem sido acordar todos os dias, molhar minhas plantas, alimentar meus gatos, saber que minhas crianças estão seguras, fazer meu trabalho com honestidade e, à noite, voltar pra casa, que tem a porta aberta para quem qui__er me visitar”.
De certa forma, Nereida conseguiu cultivar os cinco componentes para alcançar o bem-estar proposto por Martin Seligman, fundador da psicologia positiva e principal teórico da área. São eles: 1) ter emoções positivas, o que significa canalizar a energia para algo bom, mesmo que os sentimentos sejam raiva e tristeza – não se esqueça de que eles podem ser fonte de aprendizado e autoconhecimento; 2) engajar-se num trabalho ou tarefa de que você goste; 3) fortalecer laços com família e amigos; 4) encontrar algo pelo qual valha a pena viver; 5) ter um propósito que ofereça desafios constantes.
Para alcançar isso, é preciso ter foco. Em um consagrado artigo de 2010, os psicólogos Daniel Gilbert e Matthew Killingsworth, da Universidade de Harvard, concluíram que uma mente dispersa é uma mente infeliz. Embora a capacidade do nosso cérebro de divagar e prever o futuro seja uma conquista cognitiva evolutiva fundamental, que no passado nos ajudou a antecipar a chegada de um predador ou a armazenar comida para um inverno rigoroso, hoje ela pode ter uma repercu__ão negativa. Isso porque passamos boa parte do nosso tempo – 46% do dia, segundo o estudo – pensando no passado, no futuro, imersas em ideias. Isto é, viajamos acordadas quase metade do dia e, com frequência, lidamos com o mundo sem estar necessariamente conscientes. Como antídoto, a dupla de psicólogos recomenda treinar a atenção plena no presente, tal qual sugere o budismo.
Mas não vá buscando encontrar a felicidade na meditação. “Hoje em dia, descobriram a meditação com o objetivo de aumentar a produtividade. É o uso da meditação para lustrar o ego”, critica a monja Kokai. “Na meditação zen, a busca não é para engrandecer ainda mais nosso ego, mas para deixá-lo mais generoso”, diz. Segundo Kokai, o budismo até mesmo evita a palavra felicidade. Prefere contentamento, que contempla melhor a transitoriedade do que significa sentir-se bem.
“Como vou ser feliz em uma era em que a civilização tem tantos impasses e retrocessos? Como podemos ser felizes com tantas desigualdades e injustiças sociais? Mas é possível calibrar um olhar de contentamento diante da vida com respostas que nunca estão prontas”, diz. Dunker também acredita que precisamos cultivar uma cultura da generosidade e expandir nosso ideal de felicidade para além do nosso umbigo. “Vai chegar um momento em que ser feliz ou não deixará de ser uma questão relevante. Vamos nos preocupar em termos um propósito ou em aprender a amar”, conclui.
Considerando o exposto pelo texto, analise as assertivas a seguir:
I. Nas sessões de terapia, a jornalista Nereida teve que encarar suas atitudes erradas.
II. As atividades praticadas por Nereida estão de acordo com os passos para se buscar o bem-estar.
III. Uma das buscas do budismo é um estado constante de felicidade.
Quais estão corretas?