///
Em tempos de terraplanismo, movimento e negação do aquecimento global, ainda existem boas notícias para a ciência. Uma pesquisa com 4,4 mil pessoas, publicada na última sexta pelo Pew Research Center nos EUA, mostrou que 86% dos americanos confiam que os cientistas agem em favor do interesse público. O valor é 10% maior que o de 2016, quando pesquisa foi feita pela última vez.
Entre os profissionais em que a população deposita mais confiança, cientistas ficaram acima dos militares, diretores de escola (77%), líderes religiosos (57%), jornalistas (47%), empresários (46%) e políticos (35%). A pesquisa também revelou que 60% dos adultos americanos acreditam que especialistas devem estar envolvidos nas decisões políticas que envolvam ciência.
Quando se trata de método científico, os americanos são mais desconfiados. 35% das pessoas acha que o cientista pode chegar ao resultado que quiser chegar, enquanto 64% acredita que o método geralmente produz conclusões confiáveis.
No Brasil, uma pesquisa com 2,2 mil pessoas, divulgada em julho pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), confirma que a população não perdeu o otimismo em relação à ciência – e, no geral, confia naqueles que a produzem. Por aqui, os cientistas são a segunda profissão do ranking, com 85%. Ficam apenas dos médicos, por um ponto percentual.
De 2010 para cá, a quantidade de pessoas que se dizem otimistas quanto à nossa ciência caiu de 83% para 73%. Nos últimos quatro anos, desde 2015, a porcentagem se manteve no mesmo patamar. O que caiu acentuadamente foi o número dos que veem apenas benefícios na ciência – de 54% para 31% –, enquanto a parcela de quem vê mais benefício do que malefício subiu de 19% para 42%. Em outras palavras: a confiança cega foi substituída por uma confiança.
As pesquisas não medem exatamente as mesmas coisas, já que do Pew foca na pessoa do cientista, enquanto o principal estudo do CGEE mira na ciência como um todo. Mas ambas mostram a chamada percepção pública da ciência, o sentimento geral das pessoas com o conhecimento científico e quem o produz. Nesse sentido, a tendência é de alta nos EUA e queda no Brasil.
Há outros insights interessantes nas duas pesquisas. A brasileira constatou que 90% da população não sabe citar o nome de um cientista brasileiro, e 88% não conhece nenhum de nossos centros de pesquisa. 73% das pessoas acreditam que antibióticos matam vírus — não matam. Só bactérias. Sinal de deficiência na educação básica e no segundo grau. Falta também divulgação científica para os adultos, pois 82% deles declararam serem capazes de entendê-la, desde que seja bem explicada.
Nos EUA, fica evidente a influência das posições políticas na receptividade da ciência pelo público: 43% dos democratas “confiam bastante” nos cientistas; do lado dos republicanos, só 27%. Por lá, as opiniões quanto à ciência climática diferem muito. Para 70% dos democratas, a visão é positiva; para os republicanos, só 40%. Sinal de que o debate sobre o aquecimento global se pauta por ideologia, e não por uma interpretação imparcial dos dados.
Tanto os americanos quanto os brasileiros estão acima do nível global. Segundo o Wellcome Global Monitor, publicado no ano passado, 18% da população mundial tem nível de confiança alto em cientistas, 54% diz ter nível médio, enquanto 14% confia pouco.
Em relação ao assunto discutido no texto, considere as seguintes afirmações:
I. A pesquisa americana se mostrou mais otimista que a brasileira, mas, no Brasil, evidenciou-se uma mudança na concepção de confiança em relação à ciência.
II. Outros dados apresentados na pesquisa se referem ao conhecimento sobre antibióticos, o que demonstra, por parte dos brasileiros, um desconhecimento sobre um assunto que deveria ser aprendido na escola.
III. As pesquisas comprovam que a posição política influencia na forma como o público vê a ciência, tanto nos EUA quanto no Brasil.
Quais estão corretas?