///
O coração aos pulos. Aquele cheque na bolsa... Meu Deus, me protege, me guia, me salva!
Ao sair do escritório, com o negócio fechado, dona Irene sentia-se leve, até orgulhosa de haver cumprido a missão, na cidade. Nem reparou que um sujeito alto a seguia, quase tocando no seu ombro.
Quando reparou, pois ele encostara demais no seu braço e até o puxara, ficou branca, passou a mão no pulso, estava sem o relógio. Gritou desesperada: – Ladrão! Pega ladrão! Roubou meu relógio! Pega!
Se havia muita gente no local, de repente apareceu mais ainda. O bolo se adensou, e era difícil as pessoas se mexerem. O homem que agarrara o braço de dona Irene queria correr, mas aí é que não dava mesmo jeito de escapar. Num lance rápido, ele colocou alguma coisa na mão dela, que não compreendeu bem o gesto mas apertou o objeto, e só um instante depois viu que era o relógio. Quando deu fé que este lhe fora restituído – coisa surpreendente, difícil de acreditar e mais ainda de acontecer –, já o cara tinha sumido.
Coração aos pulos, emocionada pelo roubo e pela devolução imprevista, o que dona Irene desejou foi tomar um helicóptero e fugir incontinenti dali. Como não há helicópteros à disposição de senhoras aflitas, ela tomou um táxi para chegar em casa ainda arfante, com o multíplice receio do que pudesse acontecer até abrir a porta do apartamento – e mesmo depois, quem sabe lá o que pode irromper de terrível hoje em dia?
O marido, na cama, foi despertado pelo puxão nervoso e pelas palavras ainda mais nervosas de dona Irene: – Imagina: me roubaram e me devolveram meu relógio!
– Que relógio?
– Este aqui – e ela estendeu o pulso, esquecida de que o pusera na bolsa, sem tempo e sem calma para atar novamente a pulseira, depois do fato. Abriu a bolsa e exibiu o relógio recuperado.
– Mas você não levou relógio nenhum, filha. Você esqueceu ele na mesinha de cabeceira. Está ali. Quando eu dei fé, corri à janela para avisar, mas não vi mais você.
Sujeito assustado, aquele ladrão! Mais medroso do que a medrosa dona Irene.
Ao se ler o final da história, conclui-se que