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As eleições no Brasil mobilizam os veículos de informação também pelo anedotário que produzem. Curiosamente, a presença crescente de indígenas no processo eleitoral nos é transmitida exatamente nesse registro. De certo modo, a participação dos indígenas na disputa por vagas nos Poderes Legislativo e Executivo é apresentada no mesmo tom de estranheza com que o jornalismo brasileiro descreve xinguanos paramentados com sandálias havaianas e calções adidas. É como se a candidatura indígena selasse, solenemente, a inexorável aculturação.
Para além desse anedotário há, de fato, muito que refletirmos. Afinal, os mais diversos povos indígenas estão lidando com as grandes instituições da sociedade branca e com processos políticos pertencentes a uma gramática social e simbólica que lhes é absolutamente estranha, ao menos na maneira como estamos acostumados a pensar. A começar pela representação política, que envolve, no mínimo, premissas e categorias mentais muito distintas dos modos nativos de fazer política.
A política, que em muitas formulações nativas atravessa a vida social de maneira ampla, articulando-se simultaneamente às regras do parentesco, ao complexo ritual e religioso, ao discurso cosmológico, passa então a circular em uma ordem específica, a ordem política, regida por uma racionalidade burocrática e fundamentada em valores que se pretendem universalmente válidos. Formas tradicionais de liderança política — como, por exemplo, a assumida pelo sábio ancião, com sua oratória sensível, seu zelo pela reatualização permanente do legado mitológico e da tradição, seu prestígio guerreiro — cedem lugar para uma nova forma de liderança, dessa vez protagonizada por jovens talentosos, escolarizados, falantes do português, minimamente conhecedores dos códigos e peculiaridades do mundo dos brancos.
Um dos motivos pelos quais as eleições chamam tanto a atenção na mídia é o fato de se contarem muitas anedotas nos programas eleitorais.