///
Quando se pede para alguém apanhar um lápis com a mão esquerda e nomear o objeto em voz alta, ocorre uma troca de informações entre os dois hemisférios cerebrais. [...] Há tempos se sabe que o que torna possível essa comunicação é uma estrutura chamada corpo caloso, um feixe robusto formado por dezenas de milhões de fibras da substância branca – os axônios, prolongamentos de neurônios (células executivas do sistema nervoso). [...]
Um estudo publicado em agosto na revista Cerebral Cortex por pesquisadores brasileiros, porém, indica que o corpo caloso não é a única via de comunicação entre o lado direito e o esquerdo do cérebro. Há outras, mais sutis, que permaneciam ocultas e foram descritas e, mais recentemente, mapeadas por eles. São as comissuras talâmicas, feixes mais delgados de substância branca que atravessam uma estrutura cerebral situada logo abaixo do corpo caloso: o tálamo. [...]
Os biomédicos Pamela de Meneses Iack e Diego Szczupak começaram a desvendar as comissuras talâmicas no período em que passaram no laboratório do neurocientista Roberto Lent, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e as descreveram em um artigo publicado em 2021 na revista Cerebral Cortex. Mais recentemente, durante o doutorado feito sob a orientação de Lent, Iack iniciou o mapeamento das regiões cerebrais conectadas pelas comissuras. Ela injetou em diferentes áreas do córtex (a camada mais externa do cérebro) de roedores um vírus geneticamente modificado para produzir uma proteína fluorescente e acompanhou o trajeto percorrido pelo agente infeccioso. Em paralelo, confrontou com os dados públicos de um mapa tridimensional do Allen Mouse Brain Connectivity Atlas, uma ferramenta virtual que detalha as conexões do cérebro de camundongos criada pelo Instituto Allen, fundado em 2003 por Paul Allen, um dos criadores da empresa Microsoft. Assim, conseguiu rastrear o caminho das fibras que passavam pelas comissuras talâmicas e identificar as áreas cerebrais conectadas por elas. O trabalho, no entanto, precisou ser concluído por seus colegas. É que Iack morreu precocemente e de forma inesperada em 2024, aos 29 anos.
Como forma de homenagear Iack, que havia realizado os experimentos e analisado os dados, Szczupak mobilizou o restante da equipe, que finalizou o projeto e buscou uma revista que aceitasse a biomédica como autora póstuma. [...]
Para o grupo da UFRJ, a publicação do mapeamento das fibras que integram as comissuras talâmicas significou mais do que uma conquista acadêmica. “Saber que o legado da Pamela foi lido por outras pessoas dá um alento”, afirma Szczupak. “É um lado afetivo da ciência que não aparece muitas vezes na frieza das publicações científicas”, conclui Lent.
Em “‘É um lado afetivo da ciência que não aparece muitas vezes na frieza das publicações científicas’, conclui Lent”, é correto afirmar que