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Pesquisas recentes têm mostrado que os povos indígenas tiveram papel fundamental na formação da biodiversidade encontrada na América do Sul. Muitas plantas surgiram como produto de técnicas indígenas de manejo da floresta, como a castanheira, a pupunha, o cacau, o babaçu, a mandioca e a araucária. A castanhado-pará e a araucária, por exemplo, teriam sido distribuídas por uma grande área pelos povos indígenas antes da ocupação europeia no continente.
O manejo desses povos sobre a biodiversidade foi essencial para a formação de diferentes paisagens no Brasil, seja na Amazônia, no Cerrado, no Pampa, na Mata Atlântica, na Caatinga, seja no Pantanal. Os povos indígenas sempre usaram os recursos naturais sem colocar em risco os ecossistemas. Suas formas de manejo têm-se mostrado muito importantes para a conservação da biodiversidade no Brasil, como a transformação do solo pobre da Amazônia em um tipo muito fértil, a terra preta de índio. Estima-se que pelo menos 12% da superfície total do solo amazônico teve suas características transformadas nesse processo.
No Sul do Brasil, por exemplo, a terra indígena Mangueirinha ajuda a conservar uma das últimas florestas de araucária nativas do mundo, e, no sul da Bahia, os Pataxó da terra indígena Barra Velha ajudam a proteger uma das áreas remanescentes de maior biodiversidade da Mata Atlântica. Na Amazônia, maior bioma brasileiro, enquanto 20% da floresta já foi desmatada nos últimos 40 anos, juntas as terras indígenas perderam apenas 1,2% de suas florestas originais, segundo dados do Projeto Mapbiomas (2023).
E não é só para a conservação das florestas que os povos indígenas e seus territórios são importantes. Em um momento em que cientistas chamam a atenção para o declínio da biodiversidade e da diversidade de plantas cultivadas, os povos indígenas são os guardiões fiéis da agrobiodiversidade. O sistema agrícola dos índios na região do Alto Rio Negro é um grande centro de diversidade de plantas cultivadas, tendo sido reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio cultural do Brasil.
A lista dos produtos dessa agrobiodiversidade é bastante extensa e a presença de muitos alimentos hoje nas mesas brasileiras, como a do açaí, do amendoim, de diversas espécies de batata e de pimentas, assim como uma grande quantidade de sementes de milho e feijão, entre outras, deve-se aos sistemas agrícolas dos povos indígenas.
A importância das terras indígenas para a conservação da biodiversidade forçou a formulação de um marco legal para promover a gestão ambiental dos territórios indígenas, por meio da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). Hoje, a grande luta dos povos indígenas é para que as leis derivadas do reconhecimento dessa importância sejam cumpridas, para a garantia de que de suas terras estejam livres de invasores e em condições ambientais que lhes permitam viver de acordo com suas tradições.
Entende-se da leitura do texto que, a despeito da criação de um marco legal para a gestão territorial e ambiental das terras indígenas, esses territórios não estão seguros contra invasores.