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A educação formal passa por uma crise sem precedentes. O modelo criado no final do século XIX para formar em escala pessoas capazes de atender as necessidades da urbanização e industrialização crescentes pede tremenda e imediata revisão. Já não é necessário preparar espíritos que se adaptem ao sistema de produção, mas sim lapidar talentos, inspirar criatividade, solidariedade, colaboração, iniciativa, empreendedorismo, práticas capazes de produzir sentido permanente nesta modernidade líquida. E o sistema emparedado da escola formal não parece ideal para responder a essa enorme demanda. Efetivamente fica evidente a dificuldade dos que operam nos sistemas de educação de trocar o que parece ainda funcionar pela incerteza perante o futuro e as demandas sobre este novo cidadão. E, entre o que não conhecem, é preferível ficar com aquilo que sabem fazer e que, de algum modo, continua colocando os meninos nas faculdades.
A cada cinco anos, em média, aparece uma panaceia, que aponta, com ares de inovação efetiva, aquilo que pode revolucionar o ensino. Vamos recordar o que acontece desde 1990: laboratórios de informática, Internet, edutainment, reforma curricular, PNE, PNLD, tablets, Common Core, livro digital, flipped classroom, adaptive learning, big data, EAD, PBL, STEM. Agora surge a onda maker.
Os norte-americanos, talvez os que buscam mais intensamente fomentar inovação no ensino (vide o projeto de Nova Iorque, chamado I-zone, para o qual o governo criou uma secretaria B, limpa de burocracia, para abrigar as escolas que querem criar currículos inovadores, fora da caixa, entre vários outros exemplos), adotam, especialmente nas faculdades de educação, a filosofia maker como o novo cavalo de Troia para mobilizar inovação na educação. O Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em particular, já opera formando empreendedorismo digital há décadas. Segundo Paulo Blikstein, de Stanford, representante da filosofia maker na educação, desde Rousseau educadores procuram produzir atividades mais experimentais, mais centradas no aluno. Paulo Freire criticou nosso modelo bancário e descontextualizado de educar e preconizava uma educação empoderadora, capaz de levar o aluno da consciência do real à consciência do possível, permitindo que o aluno mobilize o conhecimento adquirido para aplicações em sua realidade.
Paulo Blikstein afirma que a fabricação digital poderia representar uma disrupção nas escolas, permitindo ao estudante fazer coisas com segurança, construir e compartilhar suas criações. Um lugar que convidasse alunos e alunas (os ambientes de robótica e ensino de programação existentes nesse espaço seriam francamente orientados aos trabalhos de alunos), que misturasse computação, matemática, problemas reais e ferramentas de uso geral iguais às que os pais e avós desses alunos ainda usam para resolver problemas domésticos e profissionais. E um lugar que tivesse máquinas que pudessem produzir projetos e objetos “quase” profissionais, que deem orgulho aos meninos, que não sejam meros trabalhos escolares, um lugar mais livre dentro do espaço escolar, que convide educadores a trabalhar em projetos abertos.
A questão crucial, portanto, consiste no desafio de criar um novo espaço escolar capaz de despertar essas atitudes nos estudantes, capaz de induzir comportamentos semelhantes em outros que não apreciem tanto assim o que ali se produz, capaz de mobilizar a atenção dos adultos educadores para que experimentem um pouco dessa atitude maker em suas práticas, sejam professores de filosofia ou de ciências, e garantir que isso não seja mais uma moda, mais um movimento de fora para dentro com pouco impacto no tecido social das escolas.
“as necessidades” (linha 2) por às necessidades