///
Para o poeta Robert Frost, a vida era um caminho que passa por encruzilhadas inevitáveis; para Fernando Pessoa, uma sombra que passa sobre um rio. Shakespeare via o mundo como um palco e Scott Fitzgerald percebia os seres humanos como barcos contra a corrente. As metáforas nos rodeiam, mas não só quando seguramos um livro nas mãos. Em nosso uso cotidiano da língua, elas são tão presentes que nem percebemos. “Teto de vidro impede a carreira das mulheres”, “bolha do aluguel”, “cortar o mal pela raiz”… Considerada a forma por antonomásia da linguagem figurada, a metáfora, às vezes, é tida como um mero embelezamento do discurso, um alarde intelectual ou um desvio lúdico do conhecimento lógico.
Desde 1980, com a publicação do livro Metáforas da Vida Cotidiana, essa figura retórica recuperou seu protagonismo. Seus autores, George Lakoff e Mark Johnson, mostraram que as alegorias desenham o mapa conceitual a partir do qual observamos, pensamos e agimos. Com frequência, são nossa bússola invisível, que orienta tanto os gestos instintivos que fazemos como as decisões mais importantes que tomamos. É muito provável que aqueles que concebem a vida como uma cruz e os que a entendem como uma viagem não reajam da mesma forma ante um mesmo dilema. As metáforas são ferramentas eficazes e de múltiplas utilidades. Ao partir de elementos já conhecidos, elas nos ajudam a examinar realidades, conceitos e teorias novas de uma maneira prática. Também servem para abordar experiências traumáticas nas quais a linguagem literal se revela impotente. São vigorosos atalhos que a mente usa para assimilar situações complexas em que a literalidade acaba sendo limitada e confusa. É mais fácil, para nós, entender que a depressão é um buraco negro e que o DNA é o manual de instruções de cada ser vivo.
No campo da medicina, tem havido mudanças de paradigma com respeito ao impacto emocional das metáforas. Em um seminário organizado pela Universidade de Navarra, na Espanha, a linguista Elena Semino dissertou sobre os efeitos nocivos de abordar o câncer como se fosse uma guerra, e as sensações negativas que o paciente experimenta quando acredita estar “perdendo a batalha”. Mesmo que isso possa ser estimulante para outros. O erro, segundo a especialista, é generalizar certos campos semânticos, como o militar. Para corrigir essa questão, seu grupo de pesquisa elabora o que chama de cardápio de metáforas, para que médicos e pacientes enfrentem a doença de uma forma mais construtiva. As boas metáforas nos trazem outras perspectivas, fronteiras menos rígidas e novas categorizações que substituem as já desgastadas.
O texto objetiva discorrer sobre o uso de metáforas no cotidiano e a forma como elas afetam o comportamento e a percepção das pessoas.