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Os portugueses trouxeram para o Brasil pelo menos 100 mil palavras. Tenho pena de que tenham esquecido em casa algumas das minhas preferidas. Talvez não tenha sido esquecimento, mas ciúmes: gostavam tanto delas que não queriam vê-las em nossas bocas. Há todo um rol de palavras que nunca atravessaram o Atlântico.
Gosto em especial da palavra ronha — e de praticá-la. A palavra parece outra coisa, e de fato já foi: uma espécie de sarna, e uma doença de plantas também. Ninguém mais usa nesse sentido. A expressão “ficar na ronha” se refere à prática de abrir os olhos, mas permanecer na cama. Não imaginam minha excitação ao descobrir que existe uma palavra para o meu esporte preferido.
A arte da ronha consiste em acordar sem, no entanto, se levantar. É o primeiro trambique do dia: a procrastinada inaugural de todas as manhãs. “Dormi pouco”, dizem, “mas fiquei duas horas na ronha” — e pode parecer que ronha equivalha à função soneca. Não. Durante a soneca, voltamos a dormir. Na ronha, permanecemos naquele meio-termo.
Tenho muita pena de não usarmos a palavra javardo. É um sinônimo para javali, mas que nunca será usado para designar o animal propriamente dito. Chamam de javardo alguém que se comporta como um javali, ou melhor, que se comporta como imaginamos que um javali se comportaria: de forma grosseira, estúpida, abjeta. Gosto porque a palavra soa precisamente o que ela significa.
Da mesma forma, não temos um xingamento bom como aldrabão, termo que designa com especial precisão um farsante muito específico, algo entre o trapaceiro e o impostor, que comete aldrabices, pequenas fraudes — não confundir com batotas, outra palavra que não viajou, que se refere às trapaças quando cometidas dentro de um jogo sem grande importância.
De todas as palavras esquecidas, tenho uma predileta, aquela que designa a solução que resolve um problema de maneira temporária, mas não em definitivo: desenrascanço. Refere-se a uma gambiarra, mas não necessariamente mecânica — pode ser qualquer coisa que nos safe, como um papelão que faz as vezes de guarda-chuva.
Nunca ouvi essa palavra em nossas bandas e, ao mesmo tempo, nunca uma palavra definiu tão bem a atividade diária do brasileiro, esse desenrascado. Queria essa palavra em nossa bandeira: ordem, progresso e desenrascanço.
Feitas as devidas alterações de maiúsculas e minúsculas, sem alterar os sentidos originais do texto, seria gramaticalmente correto deslocar o trecho