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A pandemia de covid-19 nos relembra uma das características mais fundamentais da condição humana: a solidariedade que existe entre humanos ultrapassando fronteiras, entre humanos e outros seres vivos, assim como entre seres vivos e seus ambientes. Essa lembrança, que nacionalistas obtusos e lógicas competitivas já correm para abafar, nos convida a repensar como deveria ser uma instituição política global verdadeira — que aqui iremos chamar de “bens comuns globais da humanidade”.
As lições que a pandemia ensina também se aplicam aos maiores problemas que confrontam a humanidade, a começar pelo aquecimento global e o desfile de desastres que estão programados para ocorrer e para os quais não estamos mais preparados do que estávamos para enfrentar o vírus. De maneira alguma, nossas instituições econômicas e políticas nos armam para encarar o que nos espera à frente. É então mais urgente que nunca que repensemos politicamente as condições necessárias à sobrevivência da humanidade no planeta.
O vírus oferece uma demonstração perfeita aos que esperavam provas da solidariedade que liga os seres humanos uns aos outros e também aos não humanos. A interligação crescente entre sociedades, com trocas econômicas, urbanização planetária e fluxos entre fronteiras, acelerou consideravelmente a difusão da epidemia. Ultrapassou os Estados, assim como as organizações de saúde subfinanciadas, que não estavam prontas para atuar à altura da ocasião.
Em face de uma pandemia causada por um vírus tão contagioso como o da covid-19, a única solução, de acordo com epidemiologistas, é cortar todas as possíveis correntes de transmissão de humano para humano, isto é, fazer um chamado à responsabilidade coletiva de cada indivíduo. Isso não significa que cada pessoa deveria proteger meramente a si mesma, mas uma proteção mútua que cada um garante ao outro, em uma relação de reciprocidade.
Quando falamos de “saúde pública”, muitas vezes não conseguimos perceber que, nessa expressão, “público” não pode, de maneira alguma, ser reduzido ao “Estado”. “Público” aqui se refere não só a ele, mas à coletividade constituída por todos os seus cidadãos. No entanto, os governos, de maneira geral, não foram capazes de compreender que o principal trunfo em uma luta contra uma doença tão contagiosa está no que pode ser chamado de cívico, ou de coletividade, de responsabilidade.
Profundamente mal orientado por décadas de dogmas utilitários, normas neoliberais e demandas individualistas, o discurso da maior parte dos governos não se embasou nas palavras necessárias para dizer que a solidariedade social é a primeira linha de defesa contra a epidemia — que o sentimento e a consciência do destino de todos nós na mão de cada um de nós é a única vacina que temos disponível agora.
Ao contrário disso, esses governos usaram as palavras mais inadequadas: falar do óbvio interesse próprio de cada um de nós, ou sobre a nossa responsabilidade individual que carregamos frente aos riscos. Eles agiram como se a sociedade fosse uma mistura de átomos isolados, como se cada indivíduo tivesse que se proteger dos outros. É “para si mesmo” que cada um deve manter distanciamento, usar máscaras individuais, lavar as próprias mãos — não para proteger a comunidade como um todo.
Se nossos governos não foram capazes de declarar com clareza e encorajar a corresponsabilidade de cada um de nós em nosso destino coletivo, é provavelmente porque eles acham muito difícil imaginar outras relações entre indivíduos que não as de rivalidade, competição e confronto de interesses.
O texto, estruturado em forma dissertativa, trata da necessidade mundial do desenvolvimento de uma responsabilidade coletiva que possibilite a prática de ações solidárias voltadas para a sobrevivência da humanidade no planeta.