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O erudito caracterizava-se por possuir um saber vasto e transitava por diferentes áreas do conhecimento; ele não era um especialista, tinha o olhar direcionado mais para a extensão do que para a profundidade do conhecimento que procurava. Sua relação com o saber, com os livros, com os documentos, com a biblioteca era de amador, de amante.
Não via sua atividade como uma profissão, pois, na verdade, os eruditos quase sempre se dedicavam às belas letras ou às humanidades por prazer ou em busca de status, já que, comumente, tinham outra profissão que lhes garantia o sustento. Na maioria dos casos, a formação do erudito era autodidata; não possuía uma formação especializada e, quando a possuía, costumava ser em área distinta daquela em que produzia grande parte do trabalho com as letras. Seu trabalho com a escritura não era visto como separado da vida privada ou íntima.
O erudito costumava ter, em casa, a sua própria biblioteca, lugar de trabalho, o seu lugar de receber e conviver com outras personalidades do mundo da cultura. Sua vida era escrever e, em grande medida, escrever sobre o que vivia. Experiências íntimas e interesses privados misturavam-se com sua atividade pública de escritor, poeta, historiador etc.
Entretanto, entre os finais do século XIX e a primeira década do século XX, a erudição e o erudito vão desaparecendo, para dar lugar a outra figura de sujeito do conhecimento. Todos os textos anteriores a esse período, quando vão nomear o sujeito de qualquer tipo de conhecimento, chamam-no de erudito: seja o matemático, seja o historiador, seja o antropólogo, seja o físico, todos são conhecidos e identificados como eruditos.
A figura que surge como outro modelo de identidade, no Ocidente, para se referir àquele que se dedicava ao trabalho de produção de sentidos, de produção de símbolos, às atividades do pensamento e das artes, é a do intelectual, identidade que passa a circular a partir do ocaso do século XIX.
A emergência do intelectual e o declínio do erudito parecem estar ligados tanto à situação particular em que se desenvolveu e se encontra cada área de conhecimento, quanto ao contexto social e ao estágio de desenvolvimento da sociedade capitalista e burguesa em cada país, região ou localidade.
Ao que parece, a obsolescência da figura do erudito apresenta como marco as transformações econômicas, sociais, políticas e culturais geradas pela Primeira Guerra Mundial. Essa nova sociedade exigia outro tipo de conhecimento e, portanto, o emprego de novos métodos, novas teorias e novos procedimentos que somente um novo sujeito era capaz de manejar. O novo estágio do capitalismo e da sociedade burguesa exigia um produtor do conhecimento engajado no seu tempo, preocupado com a sua inserção social e com a utilidade daquilo que fazia.
Durval Muniz de Albuquerque Júnior. De amadores a desapaixonados: eruditos e intelectuais como distintas figuras de sujeito do conhecimento no Ocidente contemporâneo. In: Trajetos. Revista de História da UFC, v. 3, n.º 6, 2005, p. 55. Internet: <www.revistatrajetos.ufc.br> (com adaptações).
Do texto se infere que o marco temporal de substituição definitiva da figura do erudito pela do intelectual estaria compreendido nos anos 10 do século XIX.