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Delícias do campo
O caseiro usava iscas e matava os bichos selvagens para comer! Tatus, pacas, pássaros, todos no freezer
WALCYR CARRASCO
Sonhar com árvores, passarinhos cantando, quem sabe uma cachoeira, está na minha alma. Ambicionava a paz, o vento, sentar na varanda e olhar as estrelas. Ainda mais para quem não ama a folia do Carnaval. Morei no campo durante algum tempo. Certa manhã, acordei com o caseiro aos gritos. Os cachorros, bichos espertos, acuados em um canto, pelos eriçados. Três cobras-corais estavam na porta da cozinha. Uma entrou. Ver de perto uma cobra-coral é incrível. São lindas. Se eu pudesse, usaria uma delas como pulseira. Daria de presente para minhas amigas. Mas são venenosíssimas. Há a falsa coral, claro. Como saber com certeza na hora? Sou contra matar bichos, portanto impedi o caseiro de atacá-las com a enxada. Também sou corajoso ou maluco, não sei ao certo. Saí descalço entre as corais. Um rapaz do condomínio veio com duas forquilhas. As da varanda, foi fácil caçar. A da cozinha refugiou-se atrás de um armário. Uma loucura para pegar! Finalmente, conseguimos atirá-la com as outras na floresta que ficava logo atrás. Foi um dia tenso, porque também apareceu uma aranha saltitante na sala de jantar. Mais uma vez, não matei. A vizinha criava cachorros. De uma raça que late a noite toda. Tenho sono pesado. Mas, depois de três cobras-corais e uma aranha, como dormir com cães latindo? O inferno deve ser mais ou menos igual àquela noite.
Fui para Bonito, em Mato Grosso do Sul. Apaixonei-me pela região. Decidi que meu sonho era ter casa lá, sem dúvida um dos lugares mais lindos do mundo. Procurei pela internet. Sítios lindos. Rios. Cachoeiras. Mata preservada. Ahn... mata preservada? Claro, todos nós somos a favor de preservar a mata. A vida selvagem. O planeta. Mata preservada significa também encontrar uma onça no jardim. Ou como lembrou um amigo: – Que tal uma sucuri quando for tomar banho de rio?
Quanto mais se preservam as onças, mais onças por perto. Entusiasmadas com o cheiro de carne assada dos meus churrascos. Mas o problema real são os humanos. Tornam a vida no campo um tormento.
Depois que me mudei, passei a ir sempre para a antiga casa. Mal chegava, vinham os caseiros.
– Tem três lâmpadas queimadas.
– Acabou a ração dos cachorros.
– A bomba do poço quebrou, não tem água.
Toca a correr atrás do rapaz que arruma a bomba. Ao pet shop. Ao supermercado, porque nem leite tinha. Passava o fim de semana arrumando. Tudo certo? Hora de voltar. Pedia: – Da próxima vez, avisem, já venho com tudo.
– Sim, senhor.
Não avisavam. Ou se esqueciam de algo. Eu me cansava mais do que se ficasse em casa, em São Paulo. O que me consola é que não sou o único a sofrer com as agruras da vida saudável.
Um amigo tem um sítio perto de São Paulo. Resolveu salvar o meio ambiente. Botou um caseiro. Protegeu tatus, pacas, pássaros. Ia para lá para ouvir o canto dos passarinhos. Nem uma coruja na noite. Uma vez viu um lagartão, que fugiu de longe. Estranhava. Gastava uma grana comprando rações variadas, para os bichos. Perguntava ao caseiro. A resposta.
– Outro dia vi uma paca...
Até que descobriu. O caseiro matava os bichos selvagens para comer! Tatus, pacas, pássaros de maior porte. Todos no freezer! Usava as rações como iscas! Quase enlouqueceu. Hoje, mantém o sítio por manter. Vai de vez em quando, para ver se a casa não caiu. Uma família que conheço comprou um sítio com uma vaca. São do interior, queriam recuperar as raízes. O sonho mais íntimo era dobrar o número de vacas, aumentar o sítio, quem sabe ter uma fazenda! A primeira vaca era para aprender como funciona o negócio.
A vaca sumiu.
Roubos de gado são comuns. Pode ter sido o próprio caseiro que abriu a cerca. Ou ladrões raptaram a vaca de noite. Estavam longe, como saber? O sonho de tomar leite quentinho da vaca foi por água abaixo. Os ovos caipiras sim, eles tinham. Uma linda horta, com verduras e legumes. Um dia, pararam para fazer as contas. Entre mudas, adubos, cuidados com pulgões etc. etc., um pé de rúcula saía por uns R$ 50. A família consumia pouco. A maior parte ia mesmo para os caseiros, que inclusive vendiam para fora.
Perderam a paciência. Resolveram vender.
Vender? Bem, se há algo que encalha, é casa de campo. De praia, bem menos. Foi um bom tempo tendo prejuízo e dor de cabeça. Mas venderam, por menos do que pagaram. O pai, aliviado, fez o comentário que já virou um ditado: – Quem arruma casa no campo tem duas alegrias. Uma quando compra e mais ainda quando vende.
O texto Delícias do campo revela experiências sobre ter uma casa no campo. Diante da experiência vivida por Walcyr Carrasco e as relatadas a ele por outros, podemos concluir que para esse autor: