///
Envelhecer: com mel ou fel?
Envelhecer deveria ser como plainar. Como quem no sofre mais (tanto) com os inevitveis atritos. Assim como a nave que sai do desgaste da atmosfera e vai entrando noutro astral, e vai silente, e vai gastando nenhum-quase combustvel, flutuando como uma caravela no mar ou uma cpsula no cosmos.
Os elefantes, por exemplo, envelhecem bem. E olha que uma tarefa enorme. No se queixam do peso dos anos, nem da ruga do tempo e, quando percebem a hora da morte, caminham pausadamente para um certo e mesmo lugar – o cemitrio dos elefantes, e a morrem, completamente, com a grandeza existencial s aos grandes permitida.
Os vinhos envelhecem melhor ainda. Ficam ali nos limites de sua garrafa, na espessura de seu sabor, na adega do prazer. E vo envelhecendo e ganhando vida, envelhecendo e sendo amados e, porque velhos, desejados. Os vinhos envelhecem densamente. E do prazer.
O problema da velhice tambm se d com certos instrumentos. No me refiro aos que enferrujam pelos cantos, mas a um envelhecimento atuante como o da faca. Nela o corte dirio dos dias a vai consumindo. E, no entanto, ela continua afiadssima, encaixando-se nas mos da cozinheira como nenhuma faca nova.
Vai ver, a natureza deveria ter feito os homens envelhecerem de modo diferente. Como as facas, digamos, por desgaste, sim, mas nunca desgastante. Seria a suave soluo: a gente devia ir se gastando, se gastando, se gastando at desaparecer sem dor, como quem, caminhando contra o vento, de repente, se evaporasse. E iam perguntar: cad fulano? E algum diria – gastou-se, foi vivendo, vivendo e acabou. Acabou, claro, sem nenhum gemido ou resmungo.
O narrador do texto, ao problematizar a respeito da transio para a velhice, faz aluso a trs diferentes elementos, os quais, a princpio, so incompatveis do ponto de vista semntico: o elefante, o vinho e a faca. Tendo em vista a coerncia textual, assinale a alternativa que remete ao papel que esses elementos desempenham.