///
Envelhecer está na moda. Chegar à casa dos 90 já não espanta ninguém e abeirar-se dos 100 anos não constitui uma proeza, dessas de levar o ancião aos programas de TV, para ser exibido como um fenômeno, tal como assistimos hoje. Eu sinto que causo certo espanto quando sabem a minha idade.
– 81 anos, você?
– Às vésperas de 82 – digo eu.
– Não parece! Deve se cuidar muito!
– Na medida do possível.
E a pessoa, escarafunchando-me de cima para baixo e de baixo para cima: – Caramba! Você está bem.
Lamentavelmente, esse sonoro “você está bem” carrega um pouco de “será que está mesmo?” Na pausa do olhar julgo ver certa descrença, talvez avaliando se estou realmente bem ou se escondo algum mal secreto, que está me devorando em silêncio. Como sabem, o problema da idade mobiliza as pessoas, atiça a curiosidade e renova a esperança de uma vida longa.
Pois é, possíveis leitores, 100 anos é ali mesmo, ao virar uma das esquinas da vida. Hoje, um homem de 65 é pouca coisa mais velho que um rapaz. E, apesar de essa idade ser considerada a terceira, o foco está mudando, e os exibidores de cinema e os produtores de teatro logo estarão pleiteando a meia-entrada só para quem tiver 80 anos completos. Daí para cima.
O problema é que custa um certo preço alcançar essa marca, para não contar exclusivamente com a genética: não fumar e não beber, caminhar diariamente, deitar-se e levantar-se cedo, e não cometer excessos, principalmente os alimentares. Esqueçam o torresminho, a colherada de doce de leite, o chocolate, o sorvete, as massas em geral e o pão nosso de cada dia. E lembrem-se: engordar afasta uma pessoa da possibilidade de chegar a ser centenária, ainda dentro da validade. Mas cuidado. Não caiam na tentação de embarcar numa dessas dietas dos artistas de TV. Ao contrário disso, cultivem o jejum equilibrado, que é a única dieta que tem resultado garantido.
Apesar das caneladas que a vida nos dá inesperadamente, transformando a paz da velhice em tormento, já que viver muito tempo é dar mais chance à falta de sorte e ao infortúnio, pode-se chegar à idade centenária com várias escoriações, sem que isso nos abale muito, uma vez que a essa altura já sabemos que tudo que tem começo tem fim.
Sim, envelhecer está na moda. Aguardemos com fervor o dia em que for moda não apenas envelhecer, mas envelhecer e ser feliz.
O último parágrafo do texto