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Lançado há 60 anos, Jean-Jacques Rousseau e a ciência política de seu tempo, agora traduzido no Brasil, continua indispensável para os estudiosos do pensamento rousseauniano e, de modo geral, para quem se interessa por filosofia política. Nenhum grande pensador na área das ciências humanas produziu teoria, mesmo em níveis altamente abstratos, sem o estímulo da experiência próxima e sem o confronto com as ideias mais influentes de seu tempo. Mas nenhum grande pensador é apenas um polemista orientado por objetivos práticos. A história das teorias consiste, em grande parte, na reelaboração e em novas formas de usos de conceitos. A transformação da ideia de mercado, hoje imensamente mais complexa do que no tempo de Adam Smith, é um bom exemplo. Rousseau não foi apenas mais um contratualista. Ele é original sobretudo pela função atribuída à associação resultante do contrato: preservar não somente a segurança e os bens dos contratantes, mas a sua liberdade. Da mesma forma, a condição natural do homem — o estado de natureza dos pensadores políticos clássicos e dos juristas — foi repensada de forma inteiramente nova. Rousseau não se limitou a tentar uma descrição de como viveriam os indivíduos fora da sociedade política, isto é, sem a presença de um poder capaz de legislar, de julgar e de impor o cumprimento da lei. Foi muito além de seus antecessores e rejeitou, na construção da imagem do homem natural, todas as determinações atribuíveis à vida social, incluída a capacidade intelectual necessária para conceber as normas adequadas à vida coletiva.
A argumentatividade do texto apoia-se na tese de que nem todas as grandes teorias rejeitam a experiência e as ideias em que se baseia a “construção da imagem do homem natural” (R.24-25).