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Ingredientes para o aprendizado
Por Sírio Possenti
Às vezes, conto aspectos de minha história de letramento, como se diz hoje, com o objetivo de mostrar que ensinar português na escola é fácil.
O fundamental, no meu caso, foi a leitura. Mas não a leitura pura e simples, como a sugerida nas campanhas que de vez em quando voltam (de romances, por exemplo). Esta é crucial, mas só veio, no meu caso, como consequência das outras.
Dois ingredientes foram fundamentais: no internato em que estudava, tínhamos aulas todas as manhãs, até aos sábados. Neste dia, a aula de português era especial: para cada sábado, tínhamos de decorar um poema. E como já acontecera nos meus primeiros anos de escola, em uma pequena vila do interior, todos tinham de estar preparados, porque ninguém sabia quem ia ser chamado (para ler, num caso, para recitar o poema, no outro).
Não é muito fácil explicar o efeito que produz no aprendizado de uma língua, não só escrita, mas também literária, o “simples” fato de ler e reler um texto de qualidade até sabê-lo de cor.
O mistério é da mesma natureza, embora limitado a uma variedade da língua, do mistério da aquisição de uma língua por uma criança. Pelo “simples” fato de estar exposta à língua, às práticas de linguagem cotidianas, significativas como sempre são (sem ter aulas ou lições), o resultado é a aquisição de uma gramática que permite falar o tempo todo já aos dois ou três anos de idade. Creio que é pelo mesmo método que se adquire outra gramática da mesma língua, a da escrita formal e literária – que, em grande parte, coincide com a primeira, adquirida na infância, quando esta é da mesma língua.
Mas minha avaliação é que não foi esta (decorar poemas) a prática essencial. A essencial foi outra, à qual se esperava que todos os estudantes se dedicassem, mas que não fazia parte das aulas. Consistia em ler os textos da famosa Antologia Nacional, organizada por Fausto Barreto e Carlos de Laet.
As características fundamentais desta coletânea eram duas: continha textos de todas as épocas, da fase medieval aos dias de então e era anotada.
Havia de tudo: conselhos, fábulas, contos, poemas, excertos de obras, romancistas e historiadores. E Sermões de Vieira, claro. O segredo era as notas de rodapé que explicavam aspectos da história da língua de cada época, em geral por meio da simples apresentação da equivalência, como em baron, baroões = varão, varões. Mudanças nas palavras e de seus sentidos, por exemplo, eram apresentadas assim: devier: de devir (lat. devenire) = vier.
Assim, podia-se ler textos de épocas diferentes sem grandes problemas de compreensão, e, além disso, aprendiam-se diversas coisas sobre a língua, em especial que ela mudava a cada época em diferentes aspectos: escrita, fonologia, morfologia, sintaxe, semântica etc. (talvez seja como consequência desta experiência que nenhuma mudança linguística me apavora).
No que se refere à escrita (ainda para falar um pouco à moda do depoimento), eu me dedicava a duas práticas: de tarde, fazia o resumo de todas as aulas que tivera pela manhã, em um caderno que me servia depois para preparar as provas.
A outra prática era a cópia de trechos de que eu gostava, por uma ou outra razão. A certa altura da vida escolar, comecei um diário, que queimei no final da adolescência. Mas creio que ele não foi relevante. Relevante foi fazer os resumos.
Ao lado disso, mas sem muita constância, copiei trechos de textos e uma boa quantidade de poemas. Assim como estudava no meu caderno de resumos, lia poemas e trechos seletos em minha antologia pessoal.
Eu me pergunto, muitas vezes, por que a escola não faz simplesmente o básico: ler e escrever. Entenda-se que ler implica um conjunto diverso de atividades, que os próprios livros fornecem ou que os leitores podem suprir, entre as quais consultar dicionários, por exemplo (hoje se pode fazer isso de um celular...).
No que se refere à escrita, eu sugeriria, nos dias de hoje, um conjunto de atividades, que enumero sem pretensão de exaustividade: fazer resumos, anotar aulas, escrever e reescrever notícias, opiniões, cartas ou e-mails etc.
Estas atividades teriam de ser marcadas por uma característica: não serem ou parecerem apenas atividades escolares (isto é, redações, mesmo que alternativas). Teriam de ser para valer, ou simular que fossem para valer.
Por exemplo, escrever cartas ou e-mails para jornais e para políticos (reclamando, elogiando, contestando), ou mesmo para colegas; reescrever textos para serem postados em alguma das redes sociais (há muita queixa, bem razoável, sobre o nível de escrita nestes espaços, mesmo o de pessoas mais escolarizadas); reescrever (adaptar?) textos antigos, fazendo de conta que se está reeditando uma obra cuja ortografia precisaria ser atualizada e cujo texto se quer tornar legível. Pode-se partir da comparação entre a Carta de Caminha e as edições que circulam (como a feita por Rubem Braga), para ter uma ideia do tipo de trabalho a fazer.
Em resumo: não se deveria ler para buscar a resposta a uma questão de múltipla escolha (a possibilidade de sair intelectualmente prejudicado de uma atividade como esta é grande), mas ler para compreender, e, principalmente, para aprender a olhar para a língua (as palavras, a grafia, a sintaxe...). Nunca mais escrever redações, mas apenas textos tais como se escrevem na vida real no mundo da escrita.
Caso contrário, o futuro não é promissor.
POSSENTI, Sírio. Ingredientes para o aprendizado. Revista Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Segmento, Ed. 105, jul./2014, p. 22-23. [Excerto adaptado]
Em acordo com as Orientações Curriculares para o Ensino Médio, as ações realizadas na disciplina de Língua Portuguesa devem propiciar aos estudantes o refinamento de habilidades de leitura e de escrita, de fala e de escuta. Modernamente, essa abordagem tem sido associada a uma determinada concepção de linguagem. O texto evidencia essa concepção ao