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A NOITE EM NATAL
Dispensa o comentário. Basta anunciar. Natal à noite. Estamos vendo uma cidade quieta como se aprendesse o movimento com as múmias faraônicas. Sob a luz (quando há) das lâmpadas amarelas arrastam, meia dúzias de criaturas magras, uma "pose" melancólica de Byrons papa-jerimuns.
Depois, um "film" no Royal ou Rio Branco ou pôquer sonolento do Natal clube.
Estive uns tempos inquirindo de como alguns amigos meus passavam as primeiras horas da noite. As respostas ficam todas catalogadas em três classes. Indolência. Ficam em casa e tentam ler. Saem e não havendo (desde que morreu Parrudo) nada de novo entre nós, deixam-se ficar madorrando numa praça silenciosa. Instinto de elegância. Natal clube. Aí está como vive à noite um rapaz nesta terra de vates e de enchentes.
Não possuímos o instinto do "saloon', do ambiente, do ajuntamento. Em 1888 Paula Ney afirmava que os brasileiros só se reuniam em caso de briga. Deve ser verdade. Das quinze a vinte sociedades literárias, dançantes, e operárias que existem por aqui duas abrem o que se convencionou chamar “os seus salões”.
O hábito de palestra não é brasileiro. Nós discutimos. Somos discursófilos. Não sendo o nosso forte as leituras dos assuntos em controvérsia pomos a razão na força do berro.
Adhemar Vidal registrou a primeira observação, Gilberto Freyre a segunda. Chamou-a Stentormania. É, talvez, esta a maior afastante das nossas conversas. Índole calma e estranhamente irritável, perdemos o "aplomb" logo as contestações iniciais. A fórmula do brasileiro julgar é simples e peremptório. Sábio ou nulo. Nunca dispomos de um elogio para quem discordamos.
O brasileiro só está de acordo quando ouve ou narra anedotas.
É lógico não estamos sempre no vezo de cantar histórias jocosas. Daí o afastamento. Quem sai de casa leve obrigatoriamente uma novidade. Se não, não, como diria o velho fidalgo português.
Entre os natalenses as novidades rareiam. Substituíram-nas pelo “ouvi-dizer”, “estão dizendo por aí” e quejando.
Aqueles, por higiene moral imunes de tal vícios ficam em casa ou jogam o displicente pôquer no Natal clube. E penso que só!...
CASCUDO, Luís da Câmara. Bric-à-Brac. Natal: A Imprensa, 11 de Maio de 1924. In CASCUDO, Luís da Câmara. Crônicas de origem. (Org. Raimundo Arriais). Natal: EDUFRN, 2005. p. 87-88. [Adaptado]
Considere os excertos a seguir.
1 As respostas ficam todas catalogadas em três classes. Indolência. Ficam em casa e tentam ler. Saem e não havendo (desde que morreu Parrudo) nada de novo entre nós, deixam-se ficar madorrando numa praça silenciosa. Instinto de elegância. Natal clube. Aí está como vive à noite um rapaz nesta terra de vates e de enchentes.
2 Das quinze a vinte sociedades literárias, dançantes, e operárias que existem por aqui duas abrem o que se convencionou chamar “os seus salões”.
A respeito do uso da pontuação, é correto afirmar: