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Que seria de nós, hoje, se a Providência não no-la houvesse permitido? Que seria de nós, se...? Suponhamos que Deus não houvesse criado o sol... A terra seria deserta, nua, tenebrosa, e os mais planetas, que, com ela, estendem as suas órbitas derredor daquele disco abrasado, reverberando-lhe os raios luminosos, vagariam, sombras errantes, pelo espaço, à tênue claridade das estrelas. Para o nosso mundo toda a fecundidade, toda a beleza, toda a alegria vem do sol. Grande criador, porém, o sol é, ao mesmo tempo, “o grande putrefator”. Ao calor, emanação dos seus raios, nascem as plantas, nascem os animais, nasce o homem, surge, respira e se alimenta a vida. Mas, também, ao mesmo calor que dele deriva, se desenvolvem todos os processos da morte: as fermentações, as decomposições, as putrescências. Ao sol riem os jardins, e abrem as flores. Ao sol esfergulham as vermineiras, e se decompõem os monturos. Aquece-nos o sangue; mas, ao mesmo passo, aviventa os germens, que no-lo destroem.
Entre essas duas funções a ignorância não sabe discernir, e aproveitar. A ciência as discrimina e utiliza. Com a ignorância o sol torra, derranca, e mata. Com a ciência o sol fecunda, preserva e cria. Se Deus nos não suscitasse a missão de Osvaldo Cruz, o Brasil teria o mesmo sol, com a mesma exuberância de maravilhas, mas o sol com a peste, com o impaludismo, com a febre amarela, com a doença do barbeiro, com a úlcera de Bauru, com todas essas desgraças, até então irremediáveis, que esse homem, superior ao seu tempo e ao seu país, deixou extintas ou em via de se extinguirem. Dar o sol, e não dar a ciência, é deixar apenas meio sol, ou um sol malogrado: o sol com a doença, a esterilidade e o luto. Deus nos havia dadivado os benefícios do sol tropical. Com Osvaldo Cruz nos acrescentou os da ciência, que o corrige. Podemo-nos congratular, agora, de termos o sol estreme dos seus descontos, o sol sem as suas malignidades, o bem-logrado sol dos países saneados.
Rui Barbosa. Osvaldo Cruz: Discurso pronunciado na sessão cívica de 28 de maio de 1917, no Teatro Municipal. Prefácio de Carlos Chagas Filho. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1999. p. 60-61.
O vocábulo “houvesse” (linha 3) poderia, sem prejuízo da correção gramatical e dos sentidos do período em que se insere, ser substituído por tivesse.