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Columbine é certamente um dos paradigmáticos eventos violentos que marcaram a recente cultura norte-americana, um massacre planejado cuidadosamente durante meses, do qual fizeram parte a aquisição de armas de fogo e a de material para a produção de bombas caseiras e de propano; e os atiradores tornaram-se marca a ser copiada.
Na Escola Estadual Raul Brasil, em março de 2019, dois ex-alunos entraram armados e a primeira pessoa a ser assassinada foi a professora de filosofia e coordenadora pedagógica Marilena Umezu, que os recebeu. A cada episódio semelhante ocorrido no Brasil, Columbine emerge mais um pouco a nossa vista: o chão da escola, os tiros, a correria, as mortes, o suicídio e mais uma história trágica em que armas letais nas mãos de adolescentes protagonizaram o terror. Já não são poucos os ocorridos, como o da escola de Realengo/RJ (2011) ou o do colégio goiano (2017), em que um adolescente de catorze anos de idade matou e feriu colegas, inspirado em Columbine e Realengo, com uma pistola familiar. Todos com rastros de destruição de pessoas, famílias e comunidades.
Segundo as conclusões de três pesquisas realizadas nos Estados Unidos da América (EUA), os assassinatos nas escolas apresentam-se como resultado de uma cultura da violência, que, por admitir o fácil acesso às armas de fogo, faz com que a maioria dos autores já tenham contato prévio com esses instrumentos letais.
Essas conclusões mostram o que aparece nas discussões nacionais nos EUA a cada evento traumático como a da escola do Colorado: as consequências nefastas do porte legal de arma de fogo a que os cidadãos habilitados têm direito e o acesso fácil a armamentos facultados pela cultura que cultua armas.
No Brasil não há uma cultura que cultua armas de fogo como um de seus elementos cruciais, festejado em figuras ícones, filmes, feiras e defendido como direito à autodefesa, o que não significa que ela seja menos violenta do que a norte-americana. Mesmo sem a explícita cultura das armas, aqui se mata e morre em escala comparável à de guerras.
As mortes decorrentes de tragédias ocorridas nas escolas como as de Salvador (2002), Realengo (2011), João Pessoa (2012), Goiás (2017) e Suzano (2019) doem nos ossos e na alma. Talvez por terem sido realizadas no espaço escolar por crianças ou jovens que tiveram acesso a armas, na maioria das vezes de familiares, e que com elas mataram conhecidos, desafetos ou não. Como em Columbine, nesses casos valem as duas conclusões do relatório das agências norte-americanas: o contato e o fácil acesso a armas de fogo e sua relação direta com assassinatos de conhecidos.
O massacre da escola de Suzano/SP traz à tona, no debate nacional, as encruzilhadas que cabem aos brasileiros enfrentar. Restringir a circulação do uso de armas por pessoas não ligadas aos serviços públicos de segurança ou aumentar sua circulação? Preparar, estruturar e fornecer condições melhores para as forças de segurança pública para lidarem com seu trabalho ou alimentar as milícias paramilitares e também grupos de vizinhos armados para a proteção da vizinhança? Trabalhar para a justiça social e para a cultura da não violência e da paz na violenta sociedade brasileira ou alimentar a cultura da violência com o porte legal de armas acessíveis a amplos setores da população civil?
Em memória da professora Marilena Ferreira Umezu, que afirmava “Somos a favor do porte de livros, pois a melhor arma para salvar o cidadão é a educação”, evitemos Columbine enquanto é tempo.
De acordo com o texto, entre os elementos cruciais da cultura estadunidense, insere-se o uso de armas de fogo, defendido como direito à autodefesa dos cidadãos.