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Antes do grande salto da medicina e da cirurgia, o hospital atendia pobres: era uma obra de assistência pública. Com a crescente sofisticação dos exames e dos tratamentos, o hospital se tornou o templo da medicina, o único lugar em que é realmente possível cuidar dos doentes de maneira científica, pondo a seu serviço todos os recursos terapêuticos modernos. Assim, os doentes emigram de suas casas para o hospital: é para lá que a pessoa precisa ir para ser bem atendida, caso esteja verdadeiramente doente. É para lá também que ela precisa ir quando não quer correr o risco de nenhuma complicação, por exemplo, no parto: antes de 1940, a imensa maioria das mulheres fazia o parto em casa; hoje, quase todos os partos são realizados na maternidade. Dessa forma, o cuidado com o corpo ameaçado escapa à esfera privada: instituições públicas se encarregam literalmente dele, no sentido não só financeiro, mas também material e afetivo.
Pela primeira vez na história da humanidade, agora as pessoas nascem e morrem em um hospital. A preocupação com a eficiência, somada às dificuldades das famílias em se encarregar desses fatos, faz com que os momentos fundamentais da existência, os mais profundamente ligados à vida e à identidade, sejam retirados do âmbito familiar, do quadro doméstico, embora espaçoso, e transferidos para o cenário asséptico e funcional, mas anônimo, do hospital. Subitamente, a enfermaria comum parece cruel e insuportável; boa para indivíduos recolhidos por caridade, que nem sempre tinham um teto, ela constitui para nossos contemporâneos, acostumados a ter seu próprio quarto e que se sentem angustiados com a doença, uma espécie de arcaísmo bárbaro e desumano. De uns vinte anos para cá, vastos canteiros de obras vêm reformando os antigos centros hospitalares, substituindo as enfermarias coletivas por quartos individuais ou, pelo menos, por quartos de poucos leitos.
Assim, a reivindicação do direito individual à própria vida privada, para além da vida familiar, encontra sua derradeira consumação nesses hospitais modernos, compostos de um mosaico de quartos individuais, onde pessoas solitárias deslizam discretamente para a morte, fazendo de conta que ignoram o fato para não perturbar seus parentes...
Corresponde às ideias do primeiro parágrafo do texto e apresenta correção gramatical a seguinte afirmação: Aos antigos hospitais públicos, que assistiam aos cidadãos mais pobres, opõem-se os atuais e sofisticados hospitais particulares, para onde vão as pessoas que querem ser bem atendidas.