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No último capítulo do livro O que é religião?, intitulado “A aposta”, Rubem Alves abre a sua reflexão assim: “Convocamos e ouvimos psicólogos, filósofos, cientistas sociais testemunham e nos asseguram que a religião é uma louca que balbucia coisas sem nexo, distribuindo ilusões, fazendo alianças com os poderosos, narcotizando os pobres. Outros, ao contrário, afirmam que sem a religião o mundo humano não pode existir e que, quando deciframos os seus símbolos, contemplamo-nos como num espelho. E mais, que é justamente com estes símbolos que os oprimidos constroem suas esperanças e se lançam à luta. Curioso, entretanto, que nenhuma das testemunhas tenha sido jamais vista nos lugares sagrados, em busca de comunhão com o divino. E o que é mais grave: é sabido que nenhuma delas jamais acreditou naquilo que a religião tem a dizer. É assim com os cientistas: prestam atenção, sem acreditar; escutam e anotam, convencidos de que os homens não sabem sobre o que estão falando. Eles pensam que aqueles que não passaram pela educação científica, os homens comuns, são como sonâmbulos: caminham envolvidos por uma nuvem de ilusões e equívocos que não os deixa ver a verdade. Míopes. Cegos. Veem as coisas de cabeça para baixo. Não por má fé, mas por incapacidade cognitiva. E esta é a razão por que os cientistas ouvem suas palavras com um sorriso condescendente. Serão eles, os cientistas, que retirarão do discurso do senso comum a verdade a que somente a ciência tem acesso. E é por isto que nenhum cientista pode acreditar nas palavras da religião. Se acreditassem, seriam religiosos e não homens de ciência. Não lhes sobra outra alternativa. Todas as ciências, sem exceção, são obrigadas a um rigoroso ateísmo metodológico: demônios e deuses não podem ser invocados para explicar coisa alguma. Tudo se passa, no jogo da ciência, como se Deus não existisse... E se é daí que partem os cientistas, como poderiam eles acreditar naqueles que invocam os deuses e têm a ingenuidade de orar?... Não haverá um dever de honestidade a nos obrigar a ouvir a religião, até agora silenciosa? Não deveremos permitir que ela articule os seus pontos de vista? Ou nos comportaremos como inquisidores?”
ALVES, Rubem. O que é religião? São Paulo: Loyola, 1999, p. 115-116.
Sobre a distinção entre religião e ciência, fé e razão elaborada pelo autor, NÃO é correto afirmar: